A Nega
Estava a trabalhar em casa quando o telemóvel tocou. Quando olhei para o visor estremeci. Vi que era ela. Atendi num ápice.
- Sim?
- Olá, sou eu. Estou a telefonar-te porque preciso de ti aqui ao pé de mim. Anda. Estou super carente, preciso de abraçar alguém.
Agarrei as chaves de casa e saí a correr. Queria estar perto dela mais do que tudo.
Cheguei a casa dela. Toquei à campainha. Ela abriu a porta. Estava deslumbrante. Convidou-me para entrar.
- O que bebes?
- O costume.
Serviu-me o Porto Vintage que sempre morava na sua garrafeira. Só o cheiro daquele néctar inebriou-me os sentidos. Ela veio sentar-se junto a mim e abraçou-me. Pude sentir o seu perfume, pude sentir a suavidade da sua pele com os meus lábios. Ela olhou para mim de frente. Estava hipnotizado. Comecei com o movimento de aproximação. Ela não se mexeu um milímetro. Quando estava quase a tocar-lhe nos lábios vi-a a fazer um movimento brusco para o lado, acabando por lhe beijar a face. Fiquei paralisado naquele beijo. Depois afastei-me.
- Porque me evitas?
- Sentia-me carente. Só queria sentir-me desejada. Foi por isso que te chamei aqui hoje. Cumpriste bem o teu papel. Vi como me olhavas gulosamente. Fizeste-me sentir desejada. Estou melhor. Podes ir embora.
Senti o sabor do fel a invadir-me a boca. Estava sem palavras. Sentia-me usado. Sentia-me um objecto. Ela sabia que era como que uma deusa para mim e tratava-me como tal, como de um simples mortal se tratasse, um mero objecto de diversão nas mãos dela.
Levantei-me e dirigi-me à porta. Ainda a ouvi dizer:
- Se voltar a precisar volto a telefonar está bem?

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